Igreja de São João dos Militares de Olnda - Obra-Escola

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SJOfinal_1webO CECI conclui a execução da restauração da Igreja de São João dos Militares de Olinda, objeto de estudo do Curso Obra-Escola uma realização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, com a parceria da Prefeitura Municipal de Olinda.

A devolução do templo à comunidade Olindense será amanhã, domingo, dia 24 de junho de 2012, dedicado ao santo padroeiro da Igreja – São João. Em meio aos folguedos, fogos e fogueiras a igreja será reaberta ao culto litúrgico com missa celebrada pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, que sairá em procissão da Igreja de Nossa Senhora do Guadalupe, levando a imagem de São João em andor. Anteriormente, na noite do dia 21 de junho, foi instalada a bandeira de São João frente à porta principal para início das atividades do tríduo junino na igreja.

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Nesse momento festivo, destacamos um trecho do depoimento de Dona Anecy, moradora vizinha da igreja, quando em 2006, com a igreja interditada pelo descaso, conversou com a equipe de pesquisadores do CECI:

Desde que nasci essa igreja esta ai. Faz parte da minha vida. Tinha missa nas quintas feiras. O mês de maio era o mês mais movimentado com festividades. Tinha novenas de Santo Antônio, São João e São José. Claro que gostava e sinto falta, porque sou católica... Existia a procissão do Bom Jesus dos Martírios, mas não tem mais esta procissão há uns 30 anos. Os soldados de Socorro vinham tocar numa banda que acompanhava a procissão. Esta procissão é muito antiga, existia desde antes de eu nasci, eu fui anjo da procissão, a minha mãe fazia cachos em meu cabelo para me aprontar como anjo. Tem um caderninho de mamãe sobre a história da igreja. Ela era muito católica e gostava de anotar e pesquisar tudo sobre as igrejas de Olinda. Mais ou menos em 2000, a 7º RO de Olinda veio pintar e lavar a igreja, nesta época ainda tinha missa. Este ano teve a procissão de São João, fazia 5 anos que não saia. A Bandeira saiu de Socorro, teve fogueira e teve o tríduo. Mas só teve porque o Valter e o Senhor do ‘Cheguei Agora’ falaram com o Vigário e abriram a igreja para a festa. Antigamente tinham muitos batizados no São João. Na Sexta-feira Santa tinha via sacra que sai do Guadalupe, ia parando nas estações(casas) e para na frente da igreja de São João”.

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Procissão de São João. Largo do Amparo Fonte: Sepacctur/PMO, foto de Otávio Meira Lins – 1928

A Igreja de São João Batista dos Militares, localizada em Olinda, Pernambuco, foi construída na segunda metade do século XVI, sobrevivendo ao incêndio provocado pelos holandeses em 1631, provavelmente por estar situada fora das portas da cidade de Olinda e por ter servido de quartel de uso militar. Durante o período de reconstrução da Igreja Matriz de São Salvador (Sé de Olinda), entre 1656 e 1669, a Igreja serviu de Matriz, sendo seguida por um período de abandono, até que em 1695 foi cedida para uma confraria militar sob a invocação de São João Batista. Neste período foram realizadas obras de reparos, quase uma completa reconstrução da Igreja, que teve seu período áureo até um incêndio em 1773, no qual foi completamente destruída, sendo logo recuperada. Da segunda metade do século XVIII até o final da década de 1930 a igreja de São João teve um papel religioso e cultural importante junto à comunidade de Olindense, particularmente no período junino. Foi inclusive nessa década  que a Igreja de São João, dentre outras, foi objeto de cuidados obras de restauro e preservação por parte da então Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, do extinto Ministério da Educação e cultura, e foi alvo de serviços emergenciais realizados pela Prefeitura de Olinda na década de 1970.

Ocorre que, a partir dos anos 1990, tanto a Paróquia do Guadalupe, a qual é subordinada a Igreja de São João, como a Irmandade de São João foram aos poucos descuidando da manutenção da edificação. A falta de inspeção e de revisão periódica nos telhados e nas instalações elétricas levou ao colapso e à interdição do templo à comunidade para se evitar acidentes.

Embora revestida de significado histórico para Pernambuco, só no ano de 2005 retomaram-se as atenções a essa igreja, quando numa parceria entre o Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada – CECI, a Prefeitura Municipal de Olinda, o Governo do Estado de Pernambuco e a Fundação Maria Nobrega, realizou-se um extenso trabalho de levantamento arquitetônico, mapa dos danos, prospecções, estudos históricos e análises dos sistemas construtivos. O projeto proposto na ocasião era de requalificar o uso da Igreja para uma escola de excelência em informática para jovens em situação de risco, além das funções pastorais e litúrgicas. Embora os parceiros desse projeto tivessem os recursos financeiros para a realização do empreendimento, o projeto não prosperou em razão de a Cúria Metropolitana declinar da cessão do imóvel ao funcionamento da escola de informática. (clique aqui para ler as notícias anteriores sobre esse projeto)

Assim, a partir de 2006, Igreja de São João ficou completamente abandonada até que em 25/maio/2009 parte do telhado da nave da igreja desabou em razão do precário estado de conservação da edificação. O trecho da queda foi na área do coro, compreendendo toda a extensão da largura da nave e envolveu a tesoura do frontão. A queda repuxou parte da empena (lado interno) do tímpano da fachada, cuja alvenaria de tijolos à cutelo remonta ao restauro da igreja no final da década de 1930 pelo IPHAN (clique aqui para ver essa notícia).

Após esse sinistro, a Superintendência da 5ª SR/IPHAN, articulou junto ao Governo Federal recursos financeiros para a realização do restauro. Um escoramento emergencial foi realizado pelo IPHAN. Em 2010, o CECI foi demandado a apresentar uma proposta de Obra-Escola com a finalidade de recuperar a Igreja de São João, envolvendo a participação da comunidade jovem dos bairros do Amparo e do Guadalupe, bem como dos conhecidos mestres de ofício moradores do entorno para atuarem como instrutores.  Em dezembro do mesmo ano, o CECI firmou contrato com a 5a SR/IPHAN para realização do Curso Obra-Escola de Restauração e Adaptação da Igreja de São João Batista dos Militares. (clique aqui para ler as notícias anteriores sobre esse projeto).

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Telhado escorado e protegido com cobertura provisória

Para a realização do Curso, o CECI fez uma reflexão sobre as experiências anteriores de execução de cursos de capacitação através da modalidade de Obra-Escola, realizadas por diversas entidades públicas e privadas no país. A conclusão da equipe do CECI foi a de que o modelo até então vigente de Obra-Escola não satisfazia aos interesses comuns dos participantes – obra e aprendizagem. Na verdade, as dificuldades de se alinhar o cumprimento de prazos de execução de serviços com o tempo necessário à aquisição de habilidades pelos jovens aprendizes para a realização das tarefas, resultaram na principal causa das inúmeras interrupções ou fracassos das experiências de Obra-Escola no país.

O Ceci articulou um novo modelo de Curso Obra-Escola organizando-o em duas turmas: uma voltada para os jovens e moradores dos bairros entorno da Igreja de São João e outra voltada aos técnicos de instituições, detentores de competências na área da proteção ao patrimônio cultural. A primeira turma, ao nível básico de instrução (auxiliar de restauro) e a segunda turma ao nível técnico de extensão.  Na primeira, a atuação dos jovens aprendizes foi ativa apenas na observação da execução dos serviços pelos mestres instrutores e participativa exclusivamente na realização de modelos reduzidos de componentes construtivos. Na segunda turma toda a interação deu-se através da Sala de Aulas Virtual do Ceci, através da plataforma www.ceci.educacao.biz . Esse novo modelo permitiu aos jovens participantes a ampliação do leque de conhecimento sobre os ofícios e técnicas tradicionais da construção, pois além do aprendizado oferecido pelos serviços do restauro da igreja foi possível a execução de um rol de atividades muito maior. A carga horária do Curso Básico foi desenvolvida em 160 horas/aula, em meio-expediente, das 8h as 12h, às 3as, 5as e 6as feiras, sendo a do Curso Técnico em 80 horas/aula, em horário online aberto diuturnamente  à conveniência do aluno. Um aspecto inovador importante, ao nível do curso básico idealizado pelo Ceci, foi de não se oferecer bolsa-salário ou qualquer outro tipo de auxílio ao aluno aprendiz. Isto porque as experiências anteriores demonstram que inúmeros participantes desses cursos, por suas condições econômico-sociais especiais, eram principalmente atraídos pela remuneração de bolsa e de outras ajudas em detrimento da vontade de aquisição de conhecimento e de uma profissão.

A estrutura do Curso Obra-Escola para os jovens teve dois módulos:

•    Qualificação Básica – 48 horas de carga horaria

Este módulo aplicado por arquitetos especialistas em História da Arquitetura e Teoria do Restauro, matérias complementares e indispensáveis à formação profissional daqueles que atuam na área de conservação do patrimônio cultural construído.  Consistiram em aulas presenciais na sede do CECI, com duração de duas horas, sendo as aulas expositivas, seguidas de dinâmicas e debates entre os participantes.

•    Qualificação Específica – 112 horas de carga horaria

Neste módulo, os instrutores correspondentes aos ofício tradicionais da construção abordaram os conteúdos específicos, de acordo com cada ofício, através estudos e atividades, com a apresentação dos instrumentos específicos e aplicação de técnica de manuseio correta dos instrumentos. O método de ensino utilizado foi o da transmissão tradicional de conhecimento no qual o instrutor transfere seu conhecimento aos discípulos, um procedimento de transmissão de conhecimentos semelhante ao que se produzia no passado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Durante as aulas práticas, não houve a atuação direta do aluno sobre o bem patrimonial, apenas a observação com anotações nos manuais manuscritos. Toda a prática dos ofícios foi realizada com modelos reduzidos e suportes preparados especificamente para fins didáticos.

As aulas consistiram na observação do trabalho do mestre, seguida da aplicação dos métodos estudados em modelos reduzidos. Os seis módulos específicos ocorreram em paralelo, sendo a turma subdividida em diferentes ofícios.

A estrutura do Curso Obra-Escola para os técnicos teve dois módulos:

•    Módulo teórico

Foi utilizado o método de ensino a distância para as aulas teóricas, a partir da plataforma on-line do CECI. O aluno pôde acessar o curso na hora e local mais conveniente para si, a partir da Sala de Aulas Virtual, na plataforma www.ceci.educacao.biz , que abrigou as aulas e os exercícios em hipertextos. Uma vez por semana os alunos recebiam uma remessa de documentos, correspondente a uma aula, com um texto-base elaborado pelos professores do curso sobre um determinado assunto e uma bibliografia complementar, para um maior aprofundamento. Para contabilizar a frequência dos alunos todos os hipertextos foram sumariados e enviados ao professor. Junto a estes documentos, erá solicitada aos alunos uma tarefa-pesquisa, exercícios práticos para sedimentar o entendimento do aluno sobre os assuntos. Na sequência didática cumprida pelos alunos em cada aula seguiam uma leitura de conteúdo dos hipertextos e uma bibliografia complementar, resolução das tarefas propostas, interação com o professor e os demais alunos pelas ferramentas de fóruns. Foram previstos encontros presenciais, quinzenais, nas instalações do CECI para mesas redondas de debates técnicos.

•    Módulo prático

As práticas davam-se no canteiro de obra, juntamente com os participantes do curso de nível básico, e foram realizados pelo método pedagógico de interação direta entre aluno, professor, mestres de ofícios e artesãos-operários.  Nesse encontro, todos juntos, participaram de atividades práticas de gestão e execução de obras e serviços de manutenção, conservação e restauro, através de simulações de tarefas e atividades em canteiro de obras nos ofícios tradicionais da construção.

Os resultados dos estudos acadêmicos sobre este Curso serão publicados na nossa série Textos para Discussão: "Curso Obra-Escola, uma nova abordagem de capacitação profissional" a ser publicado em breve.

Seguem as imagens dos diversos momentos do Curso Obra-Escola de São João dos Militares que teve a seguinte equipe técnica de projeto do CECI:

- Coordenação Geral: Sílvio Mendes Zancheti
- Coordenação administrativa e financeira: Raquel Bertuzi
- Coordenação do Curso nos módulos Qualificação Básica e Teórica: Laura Alecrim e Juliana Barreto
- Coordenação do Curso nos módulos Qualificação Específica e Prática, e responsável técnico: Jorge Eduardo Lucena Tinoco
- Arquiteta residente: Karla Oliveira Grimaldi
- Mestre de obras e chefe dos instrutores: José Floriano de Arruda Neto

IMAGENS DO CURSO OBRA-ESCOLA

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Img.01 - Instrução no Módulo Qualificação Básica, alunos fazendo anotações no Manual Prático. Img.02 - Instrução no Módulo Qualificação Básica.
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Img.03 - Dinâmica de grupo entre alunos e instrutores. Img.04 - Prática de observação e identificação.
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Img.05 - Instrução no Módulo Qualificação Específica, alunos participando do confecção e içamento de componentes da tesoura da nave. Img.06 - Instrução no Módulo Qualificação Específica com modelos reduzidos (maquetes) das tesouras e demais componentes da estrutura dos telhados.
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Img.07 - Instrução no Módulo Qualificação Específica sobre as principais ferramentas dos carpinteiros e marceneiros e respectivos procedimentos de utilização e manutenção.

Img.08 - Instrução no Módulo Qualificação Específica, confecção de beiral de beira, sobeira e bica (tríplice telha).
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Img.09 - Instrução no Módulo Qualificação Específica, técnicas de elevação de alvenarias. Img.10 - Instrução no Módulo Qualificação Específica, extinção e hidratação da cal calcítica.
 

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