Velhinho em folha

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O arquiteto Jorge Tinoco trata em Opiniões & Links sobre a expressão Velhinho em folha, cunhada por empréstimo pelos alunos do Curso de Gestão de Restauro do CECI em 2006, numa alusão parodiando a expressão popular novinho em folha.

A expressão velhinho em folha foi cunhada por empréstimo [1] pelos alunos da 6ª edição do Curso de Gestão de Restauro do CECI em 2006, numa alusão parodiando a expressão popular novinho em folha [2] . Eles a utilizaram para designar algumas obras de restauração executadas com o objetivo de deixar o monumento antigo com aspecto de uma edificação nova, recém-construída. Isto pode ser constado em inúmeras intervenções realizadas por entidades públicas e privadas, em níveis federal, estadual e municipal, responsáveis pela conservação do patrimônio cultural.

Na verdade, algumas edificações de valor cultural, durante o processo de conservação ou restauro, são plastificadas pelo uso de novos materiais, substitutos dos tradicionais e originais ao monumento. As superfícies enrugadas pelo tempo, que testemunharam o passado de tantos usos, e às vezes abusos, cederam lugar às massas e tintas látex e acrílicas, às madeiras serradas e aparelhadas, às mantas de alumínio, às telhas cerâmicas industrializadas, aos pisos de porcelanato e vários outros materiais modernos.

Desde a 1ª edição do curso Gestão de Restauro em 2003, o CECI vem documentando esse modo de intervir na edificação antiga possuidora de expressivos valores históricos e artísticos. Em todas as principais cidades históricas do Nordeste e Sudeste do Brasil, através das viagens de estudos, os alunos do CECI encontram inúmeros monumentos velhinhos em folha, recém-acabados de restaurar. Um dos lugares que mais impressionam é a antiga Vila Rica ou cidade de Ouro Preto, nas Minas Gerais. Considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (1980), ela preservou um grande e significativo acervo da arquitetura civil e religiosa. Na atualidade, a percepção do observador transeunte pelas ruas daquela cidade é de um cenário semelhante aos produzidos pelo PROJAC [3] . Tal percepção se deve menos pelos novos usos e posturas municipais de uma cidade histórica com intensa vida turística que pelo tipo/aspecto dos materiais de acabamento das superfícies.

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Cidade de Ouro Preto/MG (2009), observam-se as edificações pintadas com tintas a base de PVA látex, velhinhas em folha.

ouropreto04 Ouro Preto/MG (2009), telhado velhinho em folha na paisagem urbana.
ouropreto03 Ouro Preto/MG (2009), edificação totalmente plastificada.

O centro histórico da cidade de São Luiz, no Maranhão, que também é considerado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (1997), com mais de três mil edificações históricas, ainda conserva a percepção do antigo com as características ruskinianas [4] em vários trechos centrais do sítio histórico. Entretanto, essa observação é fruto do pequeno número de imóveis que passaram por intervenções de restauro, pois naqueles casarões e igrejas onde houve obras, ocorreram as mesmas perdas de atributos inerentes às edificações do período da arquitetura luso-brasileira - foram plastificados. Na paisagem urbana de São Luiz ainda prevalecem as características comuns às edificações históricas: telhados patinados, rebocos caiados, pisos em pedras, ladrilhos e tijoleiras, madeiras lavradas e tantos outros elementos indicadores da coisa antiga.

saoluiz03 Cidade de São Luiz/MA (2009), sobrado colonial plastificado, velhinho em folha.
saoluiz02 São Luiz/MA (2009), uma das muitas patologias causada pela plastificação do edifício antigo.

Este autor atribui o hábito de se plastificar o edifício antigo à persistência do enunciado do artigo 10 da Carta de Veneza, editada pelo ICOMOS em 1964:

“Quando as técnicas tradicionais se revelarem inadequadas, a consolidação do monumento pode ser assegurada com o emprego de todas as técnicas modernas de conservação e construção (grifo nosso) cuja eficácia tenha sido demonstrada por dados científicos e comprovada pela experiência.” [5]

Esse principio, quando combinado com o artigo 9º dessa Carta [6] , propiciou a partir dos meados da década de 1960 grandes perdas de componentes originais e autênticos das edificações. Um dos exemplos mais visíveis foi a substituição generalizada dos rebocos estucados e caiados tanto internos como externos. Deve-se esclarecer que, os rebocos antigos não eram aplicados sobre uma camada de chapisco [7] e, portanto, sua ancoragem na alvenaria perdia a plena aderência com o passar do tempo. Na maioria dos casos, isto dá uma falsa idéia ao observador desavisado que o reboco não presta mais, pois ele se apresenta fofo ou não coeso quando submetido à percussão de inspeção. Entretanto, essa é uma das características dos rebocos tradicionais das construções luso-brasileiras. Não há perda de funcionalidade do reboco enquanto pele da edificação. Outras perdas significativas foram as antigas madeiras lavradas dos telhados e assoalhos tradicionais, substituídos por peças serradas industrialmente; as telhas coloniais com panos de mais de 80cm de comprimento.

Embora as diretrizes nacionais e internacionais mais recentes recomendem que as substituições de materiais e de componentes arquitetônicos devam ser realizadas com materiais que assegurem uma coerência de expressão, de aspecto, de textura e de forma com a edificação original [8] , o fato é que ainda prevalece o princípio do menor esforço com o menor custo. É evidente que não se trata aqui da aplicação de um princípio basilar da eficiência, mas da adoção de procedimentos mais práticos, rápidos e baratos no refazer e reconstituir em vez do conservar. Na verdade, as ações de consolidação e restauração de componentes construtivos antigos exigem mão-de-obra especializada e materiais de difícil acesso no mercado ou cujo modus facient perdeu-se ou está restrito a poucos mestres artífices.

O mais lastimável da atitude de se deixar as edificações antigas velhinhas em folha é que alguns renomados profissionais especialistas e importantes unidades de ensino da conservação do patrimônio cultural no país dêem prioridade à adoção de materiais sintéticos em detrimento aos tradicionais.

Jorge Eduardo Lucena Tinoco
Arquiteto especialista, responsável técnico do CECI

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1 - www.academia.org.br/abl/cgi/.../start.htm
2 - Provavelmente, o termo surgiu em razão de os livros recém-impressos apresentarem as folhas limpas, sem dobras, riscos ou diferenças na coloração, com cheiro de novo. Livros, portanto, “novinhos em folha”.
3 - O PROJAC ou Projeto Jacarepaguá, como é conhecido a Central Globo de Produções da Rede Globo de Televisão.
4 - O termo ruskiniano refere-se ao pensamento de John Ruskin, teórico da restauração, escritor e crítico inglês (1819-1900).
5 - http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=236 (último acesso em out/2009)
6 - “... todo trabalho complementar reconhecido como indispensável por razões estéticas ou técnicas destacar-se-á da composição arquitetônica e deverá ostentar a marca do nosso tempo.” Idem.
7- O uso de chapisco de cimento e areia como ponte de aderência do reboco à superfície da alvenaria surgiu a partir dos anos de 1950.
8 - Particularmente, a Carta sobre o Patrimônio Vernáculo Construído, ratificada na XII Assembléia Geral do ICOMOS (out/ 1999).